Algarve: Golfe em crise

22 de Março de 2021

Fonte: https://www.golfepress.com/pt/torneios/algarve-golfe-em-crise.html

 

A pandemia está a flagelar duramente o turismo/golfe e a economia do Algarve, com campos em dificuldade de sobrevivência, desemprego e outros investimentos (hotéis, restaurantes), que dependem muito do golfe durante a época baixa das atividades de verão, em risco de fecharem durante meses ou definitivamente.


O melhor destino turismo/golfe da Europa e do mundo desde há vários anos, aquele que os escandinavos chamavam, há alguns anos, o “paraíso do golfe” e que serve de sustento a centenas de famílias, atravessa uma grave crise, a pior desde que foi construído o primeiro campo no Algarve, há mais de cinquenta anos.


O Algarve é o principal destino turístico de Portugal no verão, com praias consideradas das melhores da Europa, e no período de outono/inverno/primavera com o golfe. A região, considerada desde há vários anos como “Melhor Destino Golfe” da Europa e do Mundo, tem 40 campos de golfe, indústria responsável por cerca de 16.800 postos de trabalho, diretos e indiretos. Nos últimos 12 meses estes campos praticamente não tiveram receitas, mantendo as despesas no mínimo possível com pessoal e manutenção.


Depois de falhar a retoma no outono, esperava-se que nos primeiros meses de 2021 a pandemia desse tréguas, permitindo que a recuperação, mesmo que lenta, tivesse início na primavera com a chegada dos turistas estrangeiros. Mas pelo contrário, a situação sanitária agravou-se no final de 2020 e primeiro mês de 2021 e as perspetivas pioraram. A decisão de encerrar os campos de golfe em todo o País, no âmbito do confinamento, veio agravar mais ainda a situação.


“O momento que se vive no Algarve, em particular na indústria do golfe, é muito grave. Após um ano de crise sanitária ainda não conseguimos ver o seu fim, o que gera uma enorme incerteza, colocando as empresas em forte pressão. Estamos no segundo lockdown, com fronteiras encerradas, sem turistas e este é o pior cenário para uma indústria como o turismo e o golfe. A quebra de receitas em 2020 atingiu os 80 por cento e tudo indica que este ano não será melhor, pelo contrário”, disse João Paulo Sousa, dirigente da Associação de Gestores de Golfe de Portugal e diretor-geral do Benamor Golfe, salientando que “se o plano de vacinação não for implementado de forma mais rápida e eficiente não se adivinham recuperações ou retomas no turismo”.


“Vejo esta situação com muita apreensão, porque todas as metas temporais para o reinício do fluxo turístico nunca se concretizaram e têm vindo a ser constantemente adiadas. E este início de 2021 tem sido tudo menos tranquilizador”, referiu Carlos Ferreira, CEO da Agência Tee Times, um dos principais operadores de golfe em Portugal e que trabalha também com os campos de Espanha.


Em 2019 os campos do Algarve registaram 1,3 milhões de voltas e em 2020 a ocupação (ainda sem números) baseou-se nos membros de cada campo, não proporcionando muitas receitas diárias aos campos “e o ano de 2021 vai ser dramático”.


“Seria imprudente referenciar algum valor previsional de perdas, uma vez que não temos turistas e que 90 por cento dos golfistas que nos visitam são estrangeiros e que estes representam entre 75 a 80 por cento das receitas geradas pelos campos de golfe no Algarve. Por isso podemos percecionar o impacto que esta pandemia está a ter nas empresas e na indústria”, acrescentou João Paulo.


Sem turistas, a maioria dos campos do Algarve “sobrevive” com as quotas anuais dos membros (a maioria estrangeiros residentes, que jogam no “seu” campo sem pagar green-fee). Há campos que registam uma média diária entre 60 a 100 voltas de membros.


“Neste momento todos os campos estão em modo de sobrevivência. É certo que os campos que tiverem um quadro de sócios maior terão mais atividade, mas estes só por si não são a solução dos problemas de tesouraria que esta crise impôs”, disse ainda o dirigente, salientando que a falta de receitas e a necessidade de manter as infraestruturas operacionais obrigou a “muita ginástica”. A incerteza sobre o final da pandemia e a chegada dos golfistas estrangeiros provoca também muita apreensão sobre os riscos de desemprego.


“As empresas tem vindo a recorrer aos mecanismos disponibilizados pelo Estado, mas neste contexto de incerteza em que vivemos é muito difícil fazer previsões sobre o que vai acontecer ao nível do emprego e manutenção de postos de trabalho”.


Nesta crise profunda, serão os golfistas portugueses a procurarem mais ainda os campos do Algarve, mas queixando-se muitos dos preços de green-fee, apesar da pouca procura. A recuperação está dependente do mercado externo. O principal mercado é o britânico (com suspensão das ligações aéreas) e há outros mercados onde os cidadãos são aconselhados a não viajarem neste período. Há operadores que desistiram de 2021 e estão a transferir reservas para 2022, mas a maioria aposta ainda na reabertura em força este ano.


“Caso a situação pandémica esteja dominada na Europa e as pessoas possam viajar com alguma segurança, não tenho dúvidas de que Portugal, e o Algarve em particular, sejam das primeiras regiões turísticas com maior procura e a recuperar o fluxo turístico. Portugal pode voltar a apresentar em breve números aceitáveis, que transmitam essa confiança a todos os que nos procuram e que desejam passar férias tranquilas”, referiu Carlos Ferreira, da Tee Times, salientando esperar que no decorrer do segundo semestre a situação vai começar a normalizar.


O golfe, que no Algarve teve em 2018 um impacto direto e indireto de 1,3 milhões de euros, representa uma parte importante do PIB, mas ao contrário do que aconteceu até agora em Portugal, onde a indústria do golfe (campos, associações, clubes, etc.) não recebeu qualquer apoio ou incentivo, na vizinha Espanha o governo, Real Federação e Associação de Gestores de Campos, reuniram-se há três meses, destacando a importância do golfe para o país. Nessa reunião, onde foi apresentado um estudo sobre o impacto do golfe na economia de Espanha, foi referido que o golfe “é o motor da atividade económica” no turismo, destacando “o importante papel que (o golfe) pode ter na fase de recuperação económica, após a pandemia”.


A ministra do Turismo, Reyes Maroto, anunciou então que o governo vai baixar o IVA no golfe, de 21 para 10 por cento.